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O Monte Ararat visto da Armênia, com o mosteiro de Khor Virap em primeiro plano.
O Monte Ararat visto da Armênia, com o mosteiro de Khor Virap em primeiro plano.Foto: Andrew Behesnilian · CC BY-SA 3.0

Arca de Noé no Monte Ararat: as 6 vezes que disseram achar

Um monge, um político, militares americanos, um empresário, um astronauta e um grupo de Hong Kong. Em quase 1.700 anos, seis vezes alguém disse ter encontrado a Arca no topo do Ararat. O que cada um achou, o que afirmou e o que ninguém confirmou.

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A Arca de Noé foi encontrada no Monte Ararat? Em quase 1.700 anos, pelo menos seis vezes alguém disse que sim: um bispo, um político britânico, militares americanos, um empresário francês, um astronauta da Apollo 15 e um grupo evangélico de Hong Kong. Nenhuma dessas descobertas resistiu a um teste independente.

O Monte Ararat fica no extremo leste da Turquia, colado nas fronteiras com o Irã e a Armênia. É um vulcão adormecido de 5.137 metros, com o topo coberto de gelo o ano inteiro, a cerca de 30 quilômetros da colina de Durupınar, onde uma broca quebrou numa perfuração em 2026. Muito antes de alguém perfurar aquela colina, era lá em cima, no gelo, que todo mundo procurava a Arca.

Para cada uma das seis vezes, este dossiê separa três coisas: o que foi encontrado, o que foi afirmado e o que ninguém confirmou.

A Arca pousada sobre as montanhas depois do dilúvio, numa gravura holandesa da série Liber Genesis.
A Arca pousada sobre as montanhas depois do dilúvio, numa gravura holandesa da série Liber Genesis.Gravura: Rijksmuseum · CC0

1. Século IV: o pedaço de madeira que veio de um anjo

Segundo a tradição armênia, no século IV o bispo Jacó de Nísibis tentou subir o Ararat para ver a Arca. Toda manhã acordava de volta no ponto de partida, até que um anjo, em sonho, disse que o topo era proibido aos homens e deixou ao lado dele um pedaço da madeira da Arca.

Um pedaço de madeira apresentado como essa relíquia está guardado até hoje num relicário da catedral de Etchmiadzin, sede da Igreja Armênia, perto de Yerevan. No lugar da aparição foi construído o mosteiro de São Jacó, acima da vila de Akhuri, e por séculos a Igreja ensinou que ninguém chegaria ao topo.

A catedral de Etchmiadzin, sede da Igreja Armênia, onde fica o relicário com a madeira atribuída à Arca.
A catedral de Etchmiadzin, sede da Igreja Armênia, onde fica o relicário com a madeira atribuída à Arca.Foto: Heretiq · domínio público

Em 9 de outubro de 1829, o naturalista alemão Friedrich Parrot, guiado pelo diácono armênio Khachatur Abovian, fez a primeira subida registrada ao cume. Não viu Arca nenhuma, só gelo, e muitos monges se recusaram a acreditar que ele tinha chegado lá. Em 1840, um terremoto derrubou parte da montanha, e uma avalanche de pedra e lama soterrou Akhuri e o mosteiro.

Friedrich Parrot, o naturalista que fez a primeira subida registrada ao topo do Ararat, em 1829.
Friedrich Parrot, o naturalista que fez a primeira subida registrada ao topo do Ararat, em 1829.Pintura: Gerhard von Kügelgen · domínio público
  • Encontrado: uma relíquia de madeira guardada há séculos.
  • Afirmado: que veio da Arca, entregue por um anjo.
  • Não confirmado: a origem da madeira, que nunca foi datada de forma independente.

2. 1876: a madeira acima da linha das árvores

O jurista britânico James Bryce, professor em Oxford e depois ministro e embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos, escalou o Ararat em 1876. Acima dos 4.000 metros, onde não cresce árvore nenhuma, encontrou um pedaço de madeira trabalhada com mais de um metro e levou uma lasca para casa. Escreveu que não via motivo para afirmar que não era da Arca.

James Bryce, o político britânico que encontrou madeira trabalhada acima dos 4.000 metros em 1876.
James Bryce, o político britânico que encontrou madeira trabalhada acima dos 4.000 metros em 1876.Foto: Harris & Ewing · domínio público

Há explicações mais simples: por séculos, peregrinos, monges e pastores subiram aquelas encostas e construíram abrigos, cruzes e marcos. No frio seco da altitude, madeira dura muito tempo sem apodrecer.

  • Encontrado: madeira trabalhada num lugar onde ela não nasce.
  • Afirmado: que podia ser da Arca.
  • Não confirmado: a idade. Em 1876 não existia como datar madeira.

3. 1949: a anomalia do Ararat

No começo da Guerra Fria, o Ararat ficava na fronteira entre a Turquia, aliada dos Estados Unidos, e a União Soviética. Em 1949, aviões americanos de reconhecimento fotografaram, no lado noroeste da montanha, a cerca de 4.700 metros, uma mancha escura e comprida no gelo, com forma que lembrava um casco.

Um RB-29 de reconhecimento da Força Aérea dos EUA, em 1948, o tipo de avião que fotografava as fronteiras soviéticas no começo da Guerra Fria.
Um RB-29 de reconhecimento da Força Aérea dos EUA, em 1948, o tipo de avião que fotografava as fronteiras soviéticas no começo da Guerra Fria.Foto: Força Aérea dos EUA · domínio público

As fotos ficaram em segredo por quase 50 anos, até que o professor americano Porcher Taylor conseguiu a liberação pela lei de acesso à informação. Em 1995, o material saiu com o nome de "anomalia do Ararat". Nos anos 2000, Taylor encomendou imagens de satélites comerciais, e a mancha continuava lá. Os analistas do governo que examinaram o material concluíram que era, muito provavelmente, uma formação de rocha e gelo.

O Monte Ararat visto por satélite em 2001: o topo coberto de gelo e a montanha menor, o Pequeno Ararat, à direita.
O Monte Ararat visto por satélite em 2001: o topo coberto de gelo e a montanha menor, o Pequeno Ararat, à direita.Imagem: NASA · domínio público
  • Encontrado: uma forma escura e comprida no gelo, vista de cima.
  • Afirmado: que podia ser a Arca.
  • Não confirmado: o que é. Ninguém conhecido chegou até a anomalia e voltou com uma amostra.

4. 1955: a viga de Fernand Navarra

O empresário francês Fernand Navarra, alpinista amador, tentou duas vezes e não achou nada. Na terceira, em 1955, levou o filho Raphaël, de 11 anos. Numa fenda de um glaciar, a mais de 4.000 metros, puxou do gelo uma viga de cerca de 1,5 metro, cortada à mão, com marcas de ferramenta. Escreveu o livro J'ai trouvé l'Arche de Noé ("Eu encontrei a Arca de Noé").

Os primeiros exames, feitos na Espanha pela densidade e pelo escurecimento da madeira, falaram em uns 5.000 anos, mas o método era impreciso. Na datação por carbono-14, vários laboratórios chegaram a outra idade: entre os séculos VII e VIII depois de Cristo, cerca de 1.300 anos. Navarra voltou em 1969 com a fundação americana SEARCH e trouxe mais madeira, também datada depois de Cristo.

Aparelho de laboratório para preparar amostras de carbono-14, o método que datou a madeira de Navarra.
Aparelho de laboratório para preparar amostras de carbono-14, o método que datou a madeira de Navarra.Foto: CSIRO · CC BY 3.0

Uma das explicações mais aceitas é que a madeira veio de alguma construção religiosa da Idade Média, como uma capela ou um abrigo, talvez erguida por quem acreditava estar perto da Arca.

  • Encontrado: madeira trabalhada, presa no gelo, a mais de 4.000 metros.
  • Afirmado: que era da Arca.
  • Testado: a idade, que não bateu: uns 3 mil anos mais nova do que deveria.

5. Anos 1980: o astronauta que foi à Lua e ao Ararat

James Irwin foi astronauta da Apollo 15 e, em 1971, um dos 12 humanos que caminharam na Lua. Voltou pregador e, nos anos 1980, liderou várias expedições ao Ararat. Em 1982, caiu nas pedras, machucou gravemente o rosto e precisou ser carregado montanha abaixo. Em 1986, foi detido pelas autoridades turcas, acusado de espionagem por fotografar uma área militar perto da fronteira, e depois liberado.

James Irwin saúda a bandeira americana na Lua, durante a missão Apollo 15, em 1971.
James Irwin saúda a bandeira americana na Lua, durante a missão Apollo 15, em 1971.Foto: David R. Scott / NASA · domínio público

Irwin morreu em 1991, de ataque cardíaco, sem encontrar a Arca. Ele mesmo disse que tinha feito tudo o que podia.

  • Encontrado: nada.
  • Afirmado: que a Arca estava na montanha.
  • O que ficou: a prova de que nem um astronauta, com fama e apoio, conseguiu chegar até ela.

6. 2010: "99,9% de certeza", e uma acusação de farsa

Em abril de 2010, o grupo evangélico Noah's Ark Ministries International, de Hong Kong, anunciou ter encontrado, a uns 4.000 metros, uma estrutura de madeira enterrada no gelo e na rocha, com compartimentos e vigas. Mostrou vídeos de homens lá dentro e disse estar 99,9% certo de que era a Arca.

Acampamento de escaladores a 4.200 metros no Ararat, a altitude das expedições que procuraram a Arca.
Acampamento de escaladores a 4.200 metros no Ararat, a altitude das expedições que procuraram a Arca.Foto: Milosh Radevic · domínio público

O arqueólogo americano Randall Price, que tinha trabalhado com o grupo antes, acusou o achado de ser uma farsa: segundo ele, trabalhadores curdos teriam levado vigas velhas de uma região perto do mar Negro e montado o cenário numa caverna da montanha. O grupo negou. O local nunca foi aberto a cientistas independentes, e nenhuma datação saiu numa revista científica.

  • Encontrado: segundo o grupo, uma estrutura de madeira com compartimentos.
  • Afirmado: 99,9% de certeza.
  • Não confirmado: tudo, e pesa contra o achado uma acusação de fraude feita por alguém de dentro do projeto.

A Bíblia nem fala do Monte Ararat

O livro de Gênesis (8:4) diz que a Arca parou "sobre os montes de Ararate", no plural. Ararate era o nome de uma região, o antigo reino que os assírios chamavam de Urartu, espalhado pelo que hoje é o leste da Turquia, a Armênia e parte do Irã. A montanha só ganhou esse nome depois, por causa da própria tradição: os armênios a chamam de Masis, e os turcos, de Ağrı Dağı.

Mapa do antigo reino de Urartu, a região que a Bíblia chama de Ararate.
Mapa do antigo reino de Urartu, a região que a Bíblia chama de Ararate.Mapa: İbrahim · CC BY-SA 4.0

Por que ninguém sobe para tirar a dúvida?

Subir o Ararat é entrar numa zona militar, colada em duas fronteiras, onde a Turquia exige autorização especial para cada expedição. Por longos períodos, a montanha ficou fechada a escaladores por causa de conflitos na região. O glaciar do topo tem dezenas de metros de gelo, e uma escavação séria precisaria de meses, máquinas e permissões que nenhum governo deu.

Por isso, a atenção se voltou para baixo, para a colina de Durupınar, onde dá para chegar de carro e perfurar com autorização. E, no topo, o glaciar está encolhendo: estudos de satélite mostram o recuo do gelo nas últimas décadas. Se houver alguma coisa lá em cima, uma rocha ou mais uma viga de capela esquecida, o próprio gelo pode acabar mostrando.

Linha do tempo

Século IV
Segundo a tradição armênia, Jacó de Nísibis recebe de um anjo um pedaço da Arca.
9/10/1829
Friedrich Parrot e Khachatur Abovian fazem a primeira subida registrada ao cume.
1840
Terremoto e avalanche soterram a vila de Akhuri e o mosteiro de São Jacó.
1876
James Bryce encontra madeira trabalhada acima dos 4.000 metros.
1949
Aviões americanos fotografam a "anomalia do Ararat", a cerca de 4.700 metros.
1955
Fernand Navarra retira uma viga de cerca de 1,5 metro de uma fenda no gelo.
1969
Navarra volta com a fundação SEARCH; o carbono-14 data as madeiras dele depois de Cristo (séculos VII–VIII).
1982 e 1986
O astronauta James Irwin se fere numa queda e, depois, é detido como suspeito de espionagem.
1995
As fotos de 1949 são liberadas pelo governo americano.
Abril de 2010
Grupo de Hong Kong anuncia a Arca com "99,9% de certeza"; o achado é acusado de farsa.

Fatos pouco conhecidos

  • A Bíblia não cita o Monte Ararat pelo nome: fala dos "montes de Ararate", uma região inteira.
  • A primeira pessoa a chegar ao topo, em 1829, não viu Arca nenhuma, e muitos monges não acreditaram que ele tinha subido.
  • A madeira de Navarra é antiga, cerca de 1.300 anos, mas uns 3 mil anos mais nova do que a Arca teria de ser.
  • O astronauta James Irwin quase morreu numa encosta do Ararat, depois de ter voltado em segurança da Lua.
  • As fotos militares da "anomalia" ficaram em segredo por quase 50 anos.

Referências e fontes

  1. Bíblia, Gênesis 8:4 ("os montes de Ararate").
  2. Parrot, Friedrich (1845): Journey to Ararat, relato da primeira subida registrada (1829).
  3. Bryce, James (1877): Transcaucasia and Ararat.
  4. Navarra, Fernand (1956): J'ai trouvé l'Arche de Noé.
  5. Taylor, Porcher: liberação das imagens da "anomalia do Ararat" (1995) e estudos com satélites comerciais.
  6. Price, Randall (2010): declarações sobre o achado do Noah's Ark Ministries International.
  7. Wikipedia: Mount Ararat, Searches for Noah's Ark, James Irwin e Etchmiadzin Cathedral.

Perguntas frequentes

A Arca de Noé foi encontrada no Monte Ararat?

Não há confirmação. Pelo menos seis vezes alguém disse ter achado a Arca na montanha, mas nenhuma descoberta passou por um teste independente: a madeira de Navarra foi datada da Idade Média, a "anomalia" foi interpretada como rocha e gelo, e o achado de 2010 nunca foi aberto a cientistas.

Onde fica o Monte Ararat?

No extremo leste da Turquia, perto das fronteiras com o Irã e a Armênia. É um vulcão adormecido de 5.137 metros, com o topo coberto de gelo, e fica a cerca de 30 km do sítio de Durupınar.

O que é a anomalia do Ararat?

Uma mancha escura e comprida no gelo do lado noroeste da montanha, a cerca de 4.700 metros, fotografada por aviões americanos em 1949. As fotos foram liberadas em 1995. Os analistas do governo concluíram que é, provavelmente, uma formação de rocha e gelo.

O que Fernand Navarra encontrou?

Uma viga de madeira de cerca de 1,5 metro, com marcas de ferramenta, presa numa fenda de glaciar em 1955. A datação por carbono-14 situou a madeira entre os séculos VII e VIII depois de Cristo.

Por que ninguém faz uma escavação no topo do Ararat?

A montanha é zona militar de fronteira, exige autorização especial do governo turco, já ficou fechada por conflitos e tem dezenas de metros de gelo no topo. Uma escavação séria exigiria meses, máquinas e permissões que nunca foram dadas.

A Bíblia diz que a Arca parou no Monte Ararat?

Não exatamente. Gênesis 8:4 fala dos "montes de Ararate", no plural: Ararate era o nome de uma região, o antigo reino de Urartu. A montanha recebeu o nome depois, por causa da tradição.

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