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O HMHS Britannic pintado como navio-hospital durante a Primeira Guerra Mundial: casco branco, faixa verde e cruzes vermelhas.
O HMHS Britannic pintado como navio-hospital durante a Primeira Guerra Mundial: casco branco, faixa verde e cruzes vermelhas.Foto: Allan C. Green · domínio público

Britannic: como o irmão do Titanic afundou em 55 minutos

Redesenhado depois do Titanic para não afundar, o Britannic virou navio-hospital, bateu numa mina no mar Egeu e sumiu em menos de uma hora. A bordo estava Violet Jessop, a mulher que esteve nos três navios da família.

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O Britannic foi o irmão mais novo do Titanic, e o navio que deveria provar que o Titanic nunca mais aconteceria. Depois do naufrágio de 1912, os engenheiros refizeram o projeto dele: casco duplo, paredes à prova d'água mais altas e bote salva-vidas para todo mundo. No papel, ele aguentaria o dobro de compartimentos inundados que o irmão.

Mesmo assim, na manhã de 21 de novembro de 1916, o Britannic afundou em 55 minutos no mar Egeu, na Grécia. O Titanic tinha levado duas horas e quarenta.

E, a bordo naquela manhã, estava uma mulher que já tinha sobrevivido ao Titanic e que também navegava no terceiro irmão, o Olympic, quando ele foi atingido por um navio de guerra. Esta é a história de como o navio mais seguro da família afundou mais rápido que todos, e de por que quase todo mundo sobreviveu.

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Assista à história completa em vídeo: dos três navios-irmãos ao destroço que Cousteau encontrou, com a mina do U-73, os 55 minutos do naufrágio e a comissária Violet Jessop, que sobreviveu ao Titanic e ao Britannic.

Três irmãos para dominar o Atlântico

No começo do século 20, cruzar o Atlântico entre a Europa e a América era o grande negócio dos mares. A Cunard tinha os navios mais rápidos do mundo, o Lusitania e o Mauretania. A rival, a White Star Line, decidiu não disputar velocidade: seus navios seriam os maiores e mais luxuosos.

O plano era construir três irmãos quase idênticos no estaleiro Harland and Wolff, em Belfast, na Irlanda do Norte: o Olympic, o Titanic e o Britannic. Cada um com quase 270 metros de comprimento, o equivalente a dois campos e meio de futebol enfileirados.

O Britannic dentro do pórtico de Arrol, no estaleiro Harland and Wolff, em Belfast, dias antes do lançamento, em fevereiro de 1914.
O Britannic dentro do pórtico de Arrol, no estaleiro Harland and Wolff, em Belfast, dias antes do lançamento, em fevereiro de 1914.Foto: Robert Welch · domínio público

O Olympic ficou pronto primeiro. Em 20 de setembro de 1911, saindo de Southampton, na Inglaterra, ele foi atingido pelo cruzador britânico HMS Hawke. O choque abriu um rombo no casco e inundou dois compartimentos, mas o navio voltou ao porto boiando, e ninguém morreu. Para a White Star, aquilo virou quase propaganda. O comandante do Olympic naquele dia era Edward Smith, o mesmo que, sete meses depois, comandaria o Titanic.

O rombo no casco do Olympic depois da colisão com o cruzador HMS Hawke, em 1911.
O rombo no casco do Olympic depois da colisão com o cruzador HMS Hawke, em 1911.Foto: Robert Welch · domínio público

Dois meses depois da batida, em 30 de novembro de 1911, começou em Belfast a montagem do terceiro irmão.

O erro do Titanic: a água que passava por cima das paredes

Em 14 de abril de 1912, o Titanic raspou num iceberg no Atlântico Norte. O casco tinha paredes à prova d'água, e era por causa delas que diziam que ele não afundava. Só que essas paredes não chegavam até o teto. Quando a proa afundou, a água encheu um compartimento, passou por cima da divisória e caiu no seguinte, como numa forma de gelo inclinada. O Titanic aguentava quatro compartimentos inundados; o iceberg abriu mais do que isso. Mais de 1.500 pessoas morreram.

Como o Britannic foi refeito para não afundar

Com o Titanic no fundo do mar, o projeto do Britannic voltou para a prancheta. Três mudanças principais:

  • Casco duplo ao longo das salas de caldeiras e de máquinas: uma segunda camada de aço por dentro do casco. Para caber, o navio ficou mais largo que os irmãos.
  • Paredes à prova d'água mais altas, várias delas subindo até perto do convés superior. Pelos cálculos, o Britannic continuaria boiando com seis compartimentos inundados.
  • Botes para todos, baixados por guindastes gigantes em forma de pórtico, capazes de descer vários botes de cada lado, mesmo com o navio inclinado.
Corte e planta dos conveses do Britannic publicados pela White Star Line, com o casco dividido em compartimentos.
Corte e planta dos conveses do Britannic publicados pela White Star Line, com o casco dividido em compartimentos.Ilustração: White Star Line · domínio público

Em 26 de fevereiro de 1914, o casco deslizou para a água pela primeira vez. Era o maior dos três irmãos, com salões, piscina, banho turco e até um órgão de tubos planejado para a grande escadaria.

O lançamento do Britannic em Belfast, em 26 de fevereiro de 1914.
O lançamento do Britannic em Belfast, em 26 de fevereiro de 1914.Foto: autor desconhecido · domínio público

De navio de luxo a navio-hospital

Quatro meses depois, a Primeira Guerra Mundial começou. O Reino Unido não precisava mais de navios de luxo: precisava levar feridos para longe da frente de batalha, principalmente da campanha de Galípoli, na Turquia. Em novembro de 1915, o Britannic foi requisitado pela Marinha e virou o HMHS Britannic, Navio-Hospital de Sua Majestade.

As cabines deram lugar a cerca de 3.300 leitos. O casco foi pintado de branco, com uma faixa verde e grandes cruzes vermelhas, iluminadas à noite, para que qualquer submarino soubesse que ali não havia um navio de guerra. A primeira viagem saiu em 23 de dezembro de 1915, rumo ao porto de Mudros, na ilha grega de Lemnos, base aliada que recebia os feridos de Galípoli.

Enfermeiras militares australianas por volta de 1915, a época da campanha de Galípoli, quando os navios-hospital cruzavam o Mediterrâneo.
Enfermeiras militares australianas por volta de 1915, a época da campanha de Galípoli, quando os navios-hospital cruzavam o Mediterrâneo.Foto: State Library of South Australia · domínio público

Em junho de 1916, o navio chegou a ser dispensado e mandado de volta a Belfast para ser terminado como navio de passageiros. Em agosto, com os feridos se acumulando de novo, foi chamado de volta. O Britannic nunca levou um único passageiro pagante.

A sexta viagem e as minas do U-73

O Britannic saiu de Southampton para a sexta viagem em 12 de novembro de 1916, sob o comando do capitão Charles Bartlett, veterano da White Star. Parou em Nápoles, na Itália, para pegar carvão e água, e seguiu para o Mediterrâneo oriental.

O capitão Charles Alfred Bartlett, comandante do Britannic na viagem final.
O capitão Charles Alfred Bartlett, comandante do Britannic na viagem final.Foto: autor desconhecido · domínio público

Havia um detalhe que mudaria tudo: o navio estava indo buscar os feridos. A bordo havia 1.066 pessoas, entre tripulação, médicos, enfermeiras e soldados do corpo médico, e os leitos estavam vazios.

Semanas antes, o submarino alemão U-73 tinha deixado uma fileira de minas no canal de Kea, um corredor de mar entre ilhas gregas. Ninguém mirou no Britannic. A mina só esperou um navio grande passar por cima.

55 minutos: como o Britannic afundou

Às 8h12 de 21 de novembro de 1916, durante o café da manhã, uma explosão atingiu a proa, do lado direito. O capitão mandou fechar as portas à prova d'água, mas o navio que aguentaria seis compartimentos inundados começou a afundar mesmo assim. Foi uma corrente de problemas:

  1. A mina explodiu justamente entre dois compartimentos, e mais de seis passaram a tomar água.
  2. Algumas portas à prova d'água não fecharam: a explosão danificou o mecanismo.
  3. Muitas vigias estavam abertas para arejar as enfermarias. Quando o navio tombou, elas desceram até a linha d'água e viraram mais entradas para o mar.
  4. Para tentar encalhar na ilha de Kea, a poucos quilômetros, o capitão manteve as máquinas ligadas, e o navio em movimento empurrou ainda mais água para dentro.
O canal de Kea visto da Estação Espacial Internacional, com o ponto do naufrágio marcado entre as ilhas de Kea e Makronissos.
O canal de Kea visto da Estação Espacial Internacional, com o ponto do naufrágio marcado entre as ilhas de Kea e Makronissos.Imagem: NASA, mapa derivado · domínio público

As hélices continuaram girando na popa, que subia para fora do mar. Alguns botes foram baixados sem ordem do capitão e foram puxados para elas. Bartlett percebeu que não chegaria à ilha e mandou parar as máquinas. Daí em diante, a evacuação seguiu em ordem, com os guindastes instalados por causa do Titanic.

O mar ali tinha uns 120 metros de profundidade, menos que o comprimento do navio. A proa bateu no fundo antes de a popa afundar, e o casco se torceu com o próprio peso. Às 9h07, o Britannic desapareceu.

Por que só 30 pessoas morreram

De 1.066 pessoas a bordo, morreram 30, a maioria nos botes atingidos pelas hélices. Os motivos:

  • havia bote para todos, e os guindastes funcionaram com o navio inclinado;
  • era de dia, e todos viam para onde ir;
  • a água do mar Egeu não era a do Atlântico Norte, que matou em minutos a maioria das vítimas do Titanic;
  • a ilha estava perto, e barcos de pesca e navios da Marinha chegaram rápido;
  • e, principalmente, o navio estava vazio de pacientes. Com mais de 3 mil feridos em macas, seria impossível tirar todo mundo em 55 minutos.

Na época, muitos acharam que o Britannic tinha sido torpedeado de propósito, apesar das cruzes vermelhas. Os registros alemães mostraram que foi uma mina deixada semanas antes.

Violet Jessop: a mulher que esteve nos três irmãos

Violet Jessop nasceu na Argentina, perto de Bahía Blanca, filha de imigrantes irlandeses. Pegou tuberculose na infância e sobreviveu, contra a previsão dos médicos. Foi comissária de bordo da White Star e trabalhou nos três navios da família:

  • estava no Olympic em 1911, quando o HMS Hawke bateu nele;
  • estava no Titanic em 1912. Mandada para o bote número 16, recebeu um bebê no colo quando o bote já descia. Segundo ela contou, no navio de resgate Carpathia uma mulher pegou o bebê sem dizer uma palavra;
  • estava no Britannic em 1916, trabalhando para a Cruz Vermelha britânica.
Violet Jessop com o uniforme da Cruz Vermelha britânica.
Violet Jessop com o uniforme da Cruz Vermelha britânica.Foto: autor desconhecido · domínio público

No naufrágio do Britannic, ela voltou à cabine para pegar uma escova de dentes, a coisa que mais tinha feito falta depois do Titanic, segundo suas memórias. O bote dela foi puxado na direção das hélices. Violet pulou no mar, foi sugada para baixo do navio e bateu a cabeça no casco. Anos depois, por causa de dores de cabeça fortes, um médico descobriu que ela tinha uma fratura antiga no crânio.

Ela voltou a navegar depois da guerra, inclusive no Olympic, até 1950. Morreu em 1971, aos 83 anos. Sua autobiografia foi publicada em 1997 com o título Titanic Survivor.

Violet não foi o único veterano do Titanic no Britannic: o vigia Archie Jewell também sobreviveu aos dois naufrágios, mas morreu em abril de 1917, quando outro navio em que trabalhava foi afundado.

O Britannic no fundo do mar

O destroço ficou esquecido até 1975, quando o explorador francês Jacques Cousteau o encontrou a cerca de 120 metros de profundidade, deitado sobre o lado direito e quase inteiro, ao contrário do Titanic, que se partiu em dois. Hoje é o maior navio de passageiros afundado do mundo, e só mergulhadores técnicos chegam até ele.

Jacques-Yves Cousteau em 1975, o ano em que sua equipe encontrou o destroço do Britannic.
Jacques-Yves Cousteau em 1975, o ano em que sua equipe encontrou o destroço do Britannic.Foto: Weaver Tripp · domínio público

Em 2025, mais de cem anos depois, uma equipe autorizada pelo governo grego trouxe objetos do navio à superfície pela primeira vez: o sino do vigia, uma luz de navegação, bandejas de prata da primeira classe e azulejos do banho turco, o mesmo que nunca recebeu um passageiro. As peças vão para um museu no porto do Pireu, perto de Atenas.

Linha do tempo

20/9/1911
O Olympic é atingido pelo cruzador HMS Hawke e volta ao porto sem mortes.
30/11/1911
Começa a montagem do Britannic em Belfast.
14 e 15/4/1912
O Titanic afunda; mais de 1.500 mortos. Violet Jessop escapa no bote 16.
26/2/1914
O Britannic é lançado ao mar.
Novembro de 1915
Requisitado pela Marinha, vira navio-hospital.
23/12/1915
Primeira viagem como navio-hospital, rumo a Mudros.
Junho a agosto de 1916
Dispensado e chamado de volta ao serviço.
12/11/1916
Sai de Southampton para a sexta viagem.
21/11/1916, 8h12
Explosão de uma mina do U-73 no canal de Kea.
21/11/1916, 9h07
O Britannic afunda; 30 mortos entre 1.066 pessoas.
1975
Jacques Cousteau encontra o destroço a 120 metros.
2025
Primeiros objetos são retirados do navio e levados para um museu no Pireu.

Fatos pouco conhecidos

  • O Britannic nunca levou um passageiro pagante: passou toda a vida como navio-hospital.
  • Pelos cálculos, ele aguentaria seis compartimentos inundados; o Titanic aguentava quatro.
  • A proa bateu no fundo antes de o navio afundar inteiro, porque o navio era mais comprido que a profundidade do mar ali.
  • Violet Jessop só descobriu anos depois que tinha fraturado o crânio no naufrágio do Britannic.
  • Segundo Violet, numa noite, já idosa, uma mulher telefonou dizendo ser o bebê que ela segurou no bote do Titanic. A história nunca foi confirmada.

Referências e fontes

  1. Smithsonian Magazine (2025): primeiros objetos recuperados do destroço do Britannic.
  2. Archaeology Magazine (22/9/2025): artefatos do navio irmão do Titanic.
  3. Greek City Times (18/9/2025): objetos do HMHS Britannic e o museu no Pireu.
  4. Jessop, Violet (1997): Titanic Survivor, memórias organizadas por John Maxtone-Graham.
  5. Mental Floss e National Geographic: perfis de Violet Jessop.
  6. Wikipedia: HMHS Britannic, RMS Olympic e Violet Jessop (datas de construção, viagens e naufrágio).

Perguntas frequentes

Como o Britannic afundou?

Em 21 de novembro de 1916, o navio passou por cima de uma mina deixada pelo submarino alemão U-73 no canal de Kea, na Grécia. A explosão abriu mais de seis compartimentos, algumas portas à prova d'água não fecharam e vigias abertas deixaram entrar mais água. Ele afundou em 55 minutos.

Quantas pessoas morreram no Britannic?

Morreram 30 das 1.066 pessoas a bordo. A maioria estava em botes baixados cedo demais, que foram puxados para as hélices.

Qual é a diferença entre o Britannic e o Titanic?

O Britannic foi redesenhado depois do Titanic: tinha casco duplo nas salas de máquinas, paredes à prova d'água mais altas e botes para todos. Era também o maior dos três irmãos. Nunca levou passageiros: serviu só como navio-hospital na Primeira Guerra.

O Britannic foi torpedeado?

Não. Na época muitos acreditaram nisso, mas os registros alemães mostram que ele bateu numa mina deixada semanas antes pelo submarino U-73.

Quem foi Violet Jessop?

Uma comissária de bordo nascida na Argentina que trabalhou nos três irmãos da White Star: estava no Olympic na colisão de 1911, sobreviveu ao naufrágio do Titanic em 1912 e ao do Britannic em 1916.

Onde está o Britannic hoje?

No fundo do mar Egeu, a cerca de 120 metros de profundidade, perto da ilha de Kea, na Grécia. Encontrado por Jacques Cousteau em 1975, é o maior navio de passageiros afundado do mundo.

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