Um porta-aviões pode ser afundado? Por que é tão difícil
O maior navio de guerra do mundo quase não tem armas, já foi "afundado" num exercício por um submarino brasileiro e, quando a própria Marinha americana tentou afundar um de verdade, precisou de quatro semanas.
Um porta-aviões pode ser afundado? Pode, mas é uma das tarefas mais difíceis da guerra no mar, e a história mostra por quê. Se o porta-aviões Gerald Ford fosse colocado em pé ao lado do Cristo Redentor, seria quase nove vezes mais alto que a estátua. São 337 metros de comprimento, 78 de largura e cerca de 100 mil toneladas, mais do que o peso de 70 mil carros populares. Lá dentro há hospital, dentista, correio com código postal próprio e corpo de bombeiros.
Ele é chamado de símbolo do poder militar americano, mas a história desse tipo de navio é bem mais curiosa. O maior navio de guerra do mundo quase não consegue se defender sozinho. Um submarino brasileiro já o "afundou" num exercício, na costa do Rio de Janeiro. E quando a própria Marinha dos Estados Unidos quis descobrir o que é preciso, de verdade, para mandar um porta-aviões para o fundo do mar, passou quatro semanas tentando.
A resistência de um porta-aviões não vem de uma blindagem grossa nem só do tamanho. Vem de uma cadeia de decisões de engenharia, de lições aprendidas a duras penas e de uma regra de física com mais de dois mil anos.
Do pouso com sacos de areia ao navio mais importante do mar
Em 18 de janeiro de 1911, na baía de São Francisco, a Marinha americana pregou uma plataforma de tábuas de pinho sobre o convés de um navio de guerra. Atravessadas nela, cordas com sacos de areia amarrados nas pontas. O piloto Eugene Ely desceu com um biplano, um gancho prendeu as cordas e o avião parou em poucos metros. Foi o primeiro pouso de um avião num navio.

Trinta anos depois, a ideia mudou a guerra no mar. Em 7 de dezembro de 1941, o ataque japonês a Pearl Harbor afundou ou danificou os encouraçados americanos que estavam no porto, mas os porta-aviões não estavam lá e sobreviveram. A partir dali, as batalhas no mar passaram a ser decididas por aviões. Em maio de 1942, no Mar de Coral, duas frotas lutaram uma batalha inteira sem que um navio jamais avistasse o outro.
Gerald Ford: um problema puxando o outro
Um porta-aviões só vale o que consegue colocar no ar. No Gerald Ford, a meta era chegar a cerca de 160 decolagens por dia, e até 270 em momentos de pico. Para lançar aviões nesse ritmo, a velha catapulta a vapor foi trocada por uma catapulta eletromagnética, que empurra o avião com ímãs. Ímãs desse tamanho consomem muita eletricidade, então o navio ganhou reatores nucleares novos, que geram bem mais energia que os da geração anterior. Com energia sobrando, deu para automatizar tarefas e reduzir a tripulação em cerca de 700 marinheiros.
Foi o primeiro projeto novo de porta-aviões americano em mais de quarenta anos. Entrou em serviço em 2017, custou cerca de US$ 13 bilhões e foi desenhado para durar cinquenta anos.
Uma cidade que flutua
Um porta-aviões não é só um navio grande: é uma cidade no meio do oceano, a milhares de quilômetros do supermercado mais próximo. Máquinas a bordo transformam água do mar em água doce, cerca de 1,5 milhão de litros por dia, e a cozinha serve até 18 mil refeições diárias sem nunca fechar.
O aeroporto dessa cidade não tem espaço para uma pista de verdade. Para decolar, a catapulta leva o caça de zero a cerca de 265 km/h em uns dois segundos. Para pousar, o avião desce a uns 240 km/h e precisa agarrar com um gancho na cauda um dos cabos de aço esticados no convés, os descendentes das cordas com sacos de areia de 1911. No momento do toque, o piloto acelera tudo: se o gancho errar os cabos, o avião precisa de força para decolar de novo antes de cair no mar.
E até uma cidade dessas tem problemas de cidade. O Gerald Ford tem cerca de 650 vasos sanitários ligados por um sistema a vácuo, parecido com o dos aviões. Em 2020, uma auditoria do governo americano apontou que os canos eram estreitos demais: o sistema entupia com frequência e, para desentupir de vez, era preciso lavar a tubulação com ácido, num serviço de cerca de US$ 400 mil a cada vez.
Quase sem armas: a defesa em camadas
Repare numa coisa que quase ninguém nota nas fotos: o porta-aviões quase não tem armas. Os encouraçados antigos eram cobertos de canhões gigantes; o porta-aviões tem só armas de último recurso, como mísseis de curto alcance e canhões automáticos que disparam milhares de tiros por minuto contra um míssil que já chegou perto demais. Toda a força dele está nos aviões.
Por isso, um porta-aviões nunca navega sozinho. Ele anda dentro de um grupo de ataque: submarinos escutando o fundo do mar, destróieres vigiando o céu com radares e mísseis, navios de abastecimento e os próprios caças patrulhando a centenas de quilômetros. São milhares de pessoas trabalhando para proteger um único navio. Funciona como uma cebola: o porta-aviões é o miolo, e cada camada existe para que nenhuma ameaça chegue até ele.
O ponto fraco que vem de baixo
A cebola tem um ponto fraco, e ele não vem do céu. Um submarino a diesel moderno, navegando devagar só com as baterias, é um dos objetos mais silenciosos do oceano.
Em 2005, num exercício perto da Califórnia, o pequeno submarino sueco Gotland passou pelas defesas de um grupo de ataque americano e conseguiu, várias vezes, posição de tiro contra o porta-aviões Ronald Reagan.

Em março de 2010, segundo relatos da imprensa naval brasileira, aconteceu aqui. O porta-aviões nuclear Carl Vinson contornava a América do Sul e fez um exercício com a Marinha do Brasil perto do Rio de Janeiro. Do lado brasileiro, havia três fragatas e o submarino Tikuna, construído no Brasil, movido a diesel e com 36 tripulantes. Na noite de 1º de março, o Tikuna se aproximou sem ser detectado e lançou dois torpedos simulados: pela regra do exercício, o Carl Vinson estava afundado. Dois dias depois, o submarino escapou de novo da escolta e repetiu o ataque.
Por que um porta-aviões boia, mesmo ferido
Afundar num exercício é uma conta no papel. Na vida real, a física está a favor do navio. Um bloco de aço afunda na hora, mas uma panela de aço boia: oca, ela desloca mais água do que o próprio peso. É o princípio de Arquimedes: tudo o que está na água recebe um empurrão para cima igual ao peso da água que tirou do lugar. Um porta-aviões de 100 mil toneladas boia porque o casco desloca cerca de 100 mil toneladas de água do mar.
Para afundá-lo, então, não basta um furo: é preciso fazer entrar água suficiente para vencer esse empurrão. E o casco é dividido em centenas de compartimentos estanques, salas que podem ser trancadas com portas à prova d'água. Um rombo alaga uma sala, não o navio inteiro, como um quadradinho que se quebra sem partir a barra de chocolate. Se o navio começar a tombar para o lado ferido, a tripulação pode encher de propósito tanques do lado oposto para endireitá-lo.
Nas laterais, abaixo da linha d'água, os navios de guerra usam camadas alternadas, uma vazia e outra cheia de líquido: a vazia deixa a explosão se espalhar e perder força, e a de líquido distribui o impacto antes que ele chegue à parede de dentro. Em vez das couraças grossas dos encouraçados antigos, os porta-aviões americanos usam aço de alta resistência e, segundo publicações especializadas, camadas de Kevlar, a fibra dos coletes à prova de bala, sobre as áreas vitais.
Tudo isso tem limite. Um torpedo pesado moderno não foi feito para bater na lateral: ele explode embaixo do casco. A explosão cria uma bolha gigante de gás que levanta o navio e, quando a bolha desaba, deixa o casco cair no vazio, como um graveto dobrado até estalar. Quantos torpedos seriam precisos para partir a espinha de um porta-aviões de 100 mil toneladas? Nenhuma guerra respondeu.
A vida a bordo
Uma missão de porta-aviões costumava durar seis meses; hoje, nove a onze meses longe de casa estão virando rotina. A maior parte da tripulação dorme em alojamentos com dezenas de pessoas, em beliches empilhados de três em três. Um estudo feito a bordo de um porta-aviões americano mediu o barulho nos dormitórios: todas as medições passaram do limite em que, segundo a Organização Mundial da Saúde, o ruído começa a atrapalhar o sono. Os turnos costumam ser de doze horas e, nos períodos mais intensos, podem passar disso.
Para aguentar, a Marinha criou seus rituais. Quando não há voos, o convés às vezes vira praia, com churrasco, música e vôlei em cima da pista: os marinheiros chamam de "piquenique na praia de aço".

Em maio de 2026, o Gerald Ford voltou para casa depois de 326 dias no mar, a missão de porta-aviões mais longa desde a Guerra do Vietnã. No cais, dezenas de marinheiros seguraram pela primeira vez os filhos que nasceram enquanto estavam no mar.

Forrestal, 1967: quando o perigo veio de dentro
Em 29 de julho de 1967, o porta-aviões Forrestal estava na costa do Vietnã, com dezenas de caças alinhados no convés, cheios de combustível e carregados de bombas. Uma falha elétrica disparou sozinha um foguete preso na asa de um caça Phantom. O foguete atravessou o convés e acertou o tanque de combustível de outro avião, que pegou fogo. No cockpit desse avião estava um piloto de 30 anos chamado John McCain, que pulou para o convés em chamas e correu.

Pouco mais de um minuto e meio depois, a primeira bomba explodiu. Algumas delas eram antigas e mais sensíveis ao calor. A explosão matou quase toda a equipe de combate a incêndio, justamente os homens que sabiam apagar aquele fogo. O combustível em chamas escorreu para os alojamentos onde marinheiros do turno da noite dormiam. Os incêndios só foram dominados horas depois, e 134 homens morreram. Nenhum inimigo tinha disparado um tiro.
McCain sobreviveu e, décadas depois, foi candidato a presidente dos Estados Unidos. A Marinha aprendeu que o maior perigo de um porta-aviões pode estar dentro dele: o convés ganhou sistemas para lavar combustível derramado, e todo marinheiro passou a ser treinado como bombeiro, do cozinheiro ao piloto.
O próprio nome do navio mais moderno do mundo carrega essa lição. Gerald Ford, o presidente, serviu na Segunda Guerra no porta-aviões leve Monterey. Em dezembro de 1944, um tufão inclinou o navio, Ford escorregou pelo convés e escapou por pouco de cair no mar; logo depois, desceu com uma equipe para combater um incêndio no hangar.

Quando a Marinha tentou afundar um porta-aviões de propósito
Em 2005, a Marinha dos Estados Unidos resolveu descobrir na prática o que é preciso para afundar um porta-aviões, usando um dos seus. O USS America, veterano do Vietnã e da Guerra do Golfo, estava aposentado desde 1996. Muitos ex-tripulantes queriam transformá-lo em museu; a Marinha decidiu que ele prestaria um último serviço como alvo.

Durante quatro semanas, longe da costa da Carolina do Norte, a Marinha fez explosões controladas contra o navio, acima e abaixo da linha d'água, medindo como o casco reagia e até onde o dano se espalhava. O porta-aviões aguentou. No fim, foi preciso colocar cargas explosivas dentro dele para terminar o serviço. Em 14 de maio de 2005, o America afundou e virou o maior navio de guerra a ir para o fundo do mar. Os resultados dos testes são secretos, mas serviram para desenhar a geração seguinte: a do Gerald Ford.
O porta-aviões brasileiro que ninguém quis receber
O Brasil tem sua própria versão dessa história. Em 2000, a Marinha comprou da França um porta-aviões usado, rebatizado de São Paulo. Menor que os americanos, ele deu trabalho a vida inteira e, em 2005, a explosão de um cano de vapor a bordo matou três marinheiros. Aposentado em 2018, foi vendido como sucata e, em agosto de 2022, saiu do Rio de Janeiro rebocado para ser desmontado na Turquia.
Não chegou. Perto da entrada do Mediterrâneo, a Turquia recusou recebê-lo por causa do possível amianto no casco. O navio passou meses rebocado em alto-mar, sem lugar para atracar, até que, em 3 de fevereiro de 2023, a Marinha do Brasil o afundou de propósito a cerca de 350 quilômetros da costa, num ponto com uns 5 mil metros de profundidade. Dois porta-aviões, de dois países, no fundo do mesmo oceano, e nenhum afundado por um inimigo.
O reator que virou usina
Há uma camada mais funda nessa história, que vai além da guerra. Nos anos 1950, a Marinha americana projetava um reator nuclear para um porta-aviões que acabou cancelado. Em vez de jogar o projeto fora, os engenheiros o adaptaram para gerar eletricidade em terra. Em dezembro de 1957, a usina de Shippingport, na Pensilvânia, entrou em funcionamento: a primeira usina nuclear de grande escala dos Estados Unidos.

Desde fevereiro de 1945, nenhum inimigo conseguiu afundar um porta-aviões americano em serviço. O maior navio de guerra que já foi a pique afundou pelas mãos da própria Marinha, e a resposta para a pergunta "quanto é preciso para afundar uma cidade?" está a cinco quilômetros de profundidade, guardada como segredo.
Linha do tempo
Fatos pouco conhecidos
- O Gerald Ford tem código postal próprio, hospital, dentista e corpo de bombeiros.
- Desentupir de vez o sistema de esgoto do Ford chegava a custar cerca de US$ 400 mil por limpeza.
- No pouso, o piloto acelera tudo no momento do toque, para conseguir decolar de novo se o gancho errar o cabo.
- O USS America, afundado pela própria Marinha em 2005, é o maior navio de guerra que já foi para o fundo do mar.
- A primeira usina nuclear de grande escala dos EUA nasceu de um reator projetado para um porta-aviões.
Referências e fontes
- Naval History and Heritage Command (NHHC): primeiro pouso de Eugene Ely (1911) e incêndio do USS Forrestal (1967).
- Marinha dos EUA e DVIDS: dados do USS Gerald R. Ford, missão de 2025–2026 e retorno a Norfolk.
- Government Accountability Office / auditoria de 2020 sobre o sistema sanitário do CVN-78.
- Marinha dos EUA (2005): testes de sobrevivência e afundamento do ex-USS America (CV-66).
- Poder Naval: cobertura do exercício com o USS Carl Vinson e o submarino Tikuna (2010).
- Marinha do Brasil: nota oficial sobre o afundamento do casco do ex-NAe São Paulo (2023).
- Departamento de Energia dos EUA: história da usina de Shippingport (1957).
Perguntas frequentes
Por que é tão difícil afundar um porta-aviões?
Porque o navio é protegido por camadas: escolta de destróieres, submarinos e caças; um casco dividido em centenas de compartimentos estanques; proteção lateral em camadas; e uma tripulação inteira treinada para combater incêndios e alagamentos.
Quantos porta-aviões americanos foram afundados por inimigos depois da Segunda Guerra?
Nenhum. Desde fevereiro de 1945, nenhum porta-aviões americano em serviço foi afundado por um inimigo.
O que aconteceu no teste do USS America?
Em 2005, a Marinha fez quatro semanas de explosões controladas contra o porta-aviões aposentado. Ele resistiu e só afundou depois que foram colocadas cargas explosivas dentro dele, em 14 de maio de 2005.
Um submarino brasileiro realmente "afundou" um porta-aviões americano?
Num exercício, sim. Em 2010, segundo relatos da imprensa naval, o submarino Tikuna conseguiu posição de tiro e lançou torpedos simulados contra o Carl Vinson, que pela regra do exercício foi considerado afundado.
O que aconteceu com o porta-aviões São Paulo?
Depois de aposentado e vendido como sucata, ele foi recusado pela Turquia por causa do possível amianto e acabou afundado pela Marinha do Brasil em fevereiro de 2023, no Atlântico.
Qual é o maior porta-aviões do mundo?
É o americano USS Gerald R. Ford, o primeiro da sua classe: 337 metros de comprimento, 78 de largura e cerca de 100 mil toneladas.
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