Yamato: a vida e o fim do maior encouraçado da história
Construído em segredo, com os maiores canhões já postos num navio, o Yamato quase nunca usou esses canhões contra outro navio. Como viviam 3.332 homens lá dentro e como ele foi afundado por aviões que nem conseguia ver.
O encouraçado Yamato foi o maior navio de guerra de canhões já construído: 263 metros de comprimento, cerca de 72 mil toneladas carregado e nove canhões de 46 centímetros, os maiores que um navio já levou. O Japão o construiu em segredo absoluto, calculando cada placa de aço para resistir a qualquer canhão inimigo.
E quase nunca encontrou um canhão inimigo. Passou meses parado, ganhou o apelido de "Hotel Yamato" e, em 7 de abril de 1945, foi afundado por aviões que decolaram de porta-aviões que ele nunca chegou a ver. Dos 3.332 homens a bordo, morreram 3.055.
Este dossiê conta como era o navio por dentro, como viviam os homens que moravam nele e por que a maior arma flutuante da Segunda Guerra terminou daquele jeito.
Construído em segredo em Kure
A quilha do Yamato foi assentada em 4 de novembro de 1937, no arsenal naval de Kure, perto de Hiroshima. O dique ganhou um telhado para que aviões não o vissem de cima, e cortinas de corda esconderam o casco de quem passasse pela baía. Dizem que faltou corda para os pescadores da região. Os operários juravam segredo, e os documentos oficiais registravam os canhões como de 40 centímetros, e não 46.

O navio foi lançado em 8 de agosto de 1940, sem cerimônia pública, e entrou na Marinha Imperial em 16 de dezembro de 1941, nove dias depois do ataque a Pearl Harbor. Durante a guerra, os americanos não souberam o tamanho real dele.
Os maiores canhões já postos num navio
O Yamato tinha três torres com três canos cada. Cada projétil pesava cerca de 1.460 quilos, o peso de um carro popular, e chegava a uns 42 quilômetros, a distância de uma maratona. Cada torre pesava cerca de 2.500 toneladas, mais que um destróier inteiro.

O sopro desses canhões era tão violento que ninguém podia ficar no convés aberto durante os disparos. Por isso, até os barcos do próprio navio ficavam guardados dentro do casco.
Uma cidade blindada com mais de mil compartimentos
Por dentro, o Yamato era um labirinto de conveses, escadas íngremes e portas de aço. Tinha 1.147 compartimentos estanques, que podiam ser trancados para isolar a água em caso de ataque. A blindagem lateral chegava a 410 milímetros, e a frente das torres, a 650 milímetros. Os engenheiros pensaram em canhões inimigos. Não foram eles que afundaram o navio.

Lá no fundo ficavam 12 caldeiras e 4 turbinas, com cerca de 150 mil cavalos de potência, que levavam o navio a 27 nós (uns 50 km/h). Os tanques carregavam cerca de 6.300 toneladas de óleo, e o combustível seria um problema: o Japão não tinha petróleo próprio, e os submarinos americanos afundavam os navios-tanque que o traziam.
O "Hotel Yamato" e a vida a bordo
Entre 1942 e 1943, o Yamato passou meses ancorado na lagoa de Truk, no Pacífico, como nau capitânia do almirante Isoroku Yamamoto. Quase não saía para lutar. Tinha ventilação e conforto melhores que a maioria dos navios japoneses, e os marinheiros de outros navios lhe deram um apelido: Hotel Yamato.

A bordo, os marinheiros dormiam em alojamentos lotados, e a hierarquia era dura. A Marinha Imperial usava castigos físicos, e havia até um nome para o bastão de madeira das punições: seishin bō, o "bastão do espírito". Havia também pequenos luxos: segundo o fabricante de refrigerantes de Hiroshima que hoje faz uma bebida em homenagem ao navio, o Yamato tinha a bordo uma máquina de ramune, o refrigerante japonês da garrafinha fechada com uma bolinha de vidro.

Os irmãos: Musashi e Shinano
O Yamato tinha dois irmãos. O Musashi, idêntico, foi atacado por ondas de aviões americanos no mar de Sibuyan, nas Filipinas, em 24 de outubro de 1944. Recebeu cerca de 19 torpedos e 17 bombas e levou mais de mil homens com ele.

O terceiro, o Shinano, foi convertido em porta-aviões depois da derrota japonesa em Midway. Afundou dez dias depois de entrar em serviço, atingido por quatro torpedos do submarino americano USS Archerfish.

A guerra que não marcou duelo com os canhões
O Yamato esteve em Midway, mas longe do combate. Em 1944, perdeu duas torres de canhões secundários e ganhou mais de 150 armas antiaéreas, porque a ameaça agora vinha do céu. A única vez em que seus canhões principais dispararam contra navios inimigos foi em 25 de outubro de 1944, na costa da ilha de Samar, durante a batalha do golfo de Leyte. A guerra no mar já era decidida por aviões lançados de porta-aviões.
7 de abril de 1945: a missão sem volta
Em abril de 1945, os americanos desembarcaram em Okinawa. O comando japonês mandou o Yamato até lá, sem cobertura aérea, com a ideia de encalhá-lo na praia e usá-lo como fortaleza. Segundo vários relatos, a ordem era abastecê-lo só para a ida, e oficiais da base de Tokuyama teriam colocado mais combustível do que o permitido. O vice-almirante Seiichi Ito, contrário à missão, obedeceu.
O Yamato saiu de Tokuyama em 6 de abril, às 15h20, com nove navios de escolta. No dia seguinte, a partir das 12h32, cerca de 386 aviões americanos atacaram em ondas. Os torpedos atingiam o casco abaixo da blindagem mais grossa, e se concentraram no lado esquerdo. Para não virar, a tripulação inundou de propósito compartimentos do outro lado, entre eles salas de máquinas, onde muitos homens morreram.

Depois de cerca de 11 torpedos e 6 bombas, às 14h23, o Yamato virou, e os paióis de munição explodiram. Uma nuvem em forma de cogumelo subiu a cerca de 6 quilômetros e foi vista de Kagoshima, no sul do Japão. Dos 3.332 a bordo, morreram 3.055; cerca de 269 sobreviveram. Os americanos perderam 10 aviões e 12 tripulantes.

O destroço e o museu
O destroço foi encontrado em 1985, a cerca de 340 metros de profundidade no mar da China Oriental, partido em dois: a proa de pé no fundo e a popa de cabeça para baixo. O Japão trata o local como túmulo de guerra.
Em Kure, onde o navio nasceu em segredo, o Museu Yamato exibe uma maquete do encouraçado na escala 1:10, com 26,3 metros de comprimento.

Linha do tempo
Fatos pouco conhecidos
- Os documentos oficiais registravam os canhões de 46 cm como de 40 cm, para esconder o tamanho real.
- O sopro dos canhões era tão forte que os barcos do navio ficavam guardados dentro do casco.
- Os canhões principais só dispararam contra navios inimigos uma vez, na costa de Samar.
- O terceiro irmão, o Shinano, virou porta-aviões e afundou dez dias depois de entrar em serviço.
- Os americanos perderam 10 aviões no ataque que afundou o Yamato.
Referências e fontes
- Wikipedia: Japanese battleship Yamato (dimensões, armamento, blindagem e cronologia).
- battleshipyamato.info: o período "Hotel Yamato" e a descoberta e as pesquisas do destroço.
- The National Interest e History Hit: Operação Ten-Go, a última ação naval japonesa da Segunda Guerra.
- Prefeitura de Hiroshima (Hiroshima Brand): o ramune feito em homenagem ao Yamato.
- Yamato Museum (Kure Maritime Museum): a maquete em escala 1:10.
Perguntas frequentes
Qual foi o maior encouraçado da história?
O japonês Yamato, junto com o irmão idêntico Musashi: 263 metros de comprimento, cerca de 72 mil toneladas carregado e nove canhões de 46 centímetros, os maiores já instalados num navio.
Como o Yamato afundou?
Em 7 de abril de 1945, a caminho de Okinawa e sem cobertura aérea, foi atacado por cerca de 386 aviões americanos. Atingido por cerca de 11 torpedos e 6 bombas, virou às 14h23 e explodiu.
Quantas pessoas morreram no Yamato?
Dos 3.332 homens a bordo, morreram 3.055. Cerca de 269 sobreviveram, recolhidos por navios de escolta.
Onde está o Yamato hoje?
No fundo do mar da China Oriental, a cerca de 340 metros de profundidade, partido em dois. Foi encontrado em 1985, e o Japão trata o local como túmulo de guerra.
Por que o Yamato foi chamado de "Hotel Yamato"?
Porque passou meses de 1942 e 1943 ancorado na lagoa de Truk, como quartel-general do almirante Yamamoto, com mais conforto que os outros navios e quase sem combater.
Onde fica o Museu Yamato?
Em Kure, na província de Hiroshima, a cidade onde o navio foi construído. O museu exibe uma maquete de 26,3 metros, na escala 1:10.
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